Tuesday, December 13, 2005

15/11/2005: A PIMPINHA
No passado fim-de-semana, o semanário português O INDEPENDENTE publicou,discretamente, no seu suplemento VIDA, uma coluna de opinião da autoria deCatarina Jardim. Quem é Catarina Jardim? Nada mais, nada menos do que apopular Pimpinha Jardim.
Voltemos então a Catarina Jardim e à sua coluna no jornal. O título do artigo é TODOS A BORDO, e trata-se - como o nome indica - de um relatodetalhado sobre um cruzeiro a África que a jovem fez.Ela diz, no início "O cruzeiro a África foi uma loucura, pode mesmodizer-se que foi o cruzeiro das festas - como alguns dos convidadoschamavam ao navio em que Luís Evaristo nos presenteou com MAIS UM BeOne onBoard". Gosto da maneira como ela fala, sem explicações nem perdas detempo, de pessoas e iniciativas sobre as quais boa parte dos leitores nãofaz a mínima ideia quem sejam ou no que consistem. Nada contra - isto fazcom que qualquer leitor se sinta cúmplice e rapidamente imerso no universoPimpinha. Adiante.Ficamos a saber que ela esteve em Tânger, e que a experiência foi,possivelmente a mais marcante da vida desta jovem. Passo a ler o que elaescreve:"Tânger é bastante feia, muito suja e as pessoas têm um aspectoassustador."Nunca fui a Tânger, mas já fui a sítios parecidos e subscrevo inteiramenteas palavras de Pimpinha. Malditas pessoas pobres, que só estragam o nossoplaneta com a sua sujidade e o seu ar assustador! É preciso ser-se mesmoruim para se escolher ser pobre, quando se pode ser tão limpo e bonito.Quando se pode ser, em suma, rico.Eu penso que a Pimpinha acertou em cheio na raiz de todos os problemasmundiais da pobreza. Andam entidades a partir a cabeça em todo o mundo apensar nisto, andou a Princesa Diana a gastar tantas solas de sapatos carosa visitar hospitais, capaz de apanhar uma doença, quando nós temos aPimpinha com a solução. Se calhar basta lavar estas pessoas, e talvez -acompanhem-me neste raciocínio; Pimpinha vai ficar orgulhosa de mim - secalhar basta lavar estas pessoas, e em vez de gastar rios de dinheiro amandar comida para África, porque não os Médicos Sem Fronteiras passarem aandar munidos de botox. Botox! Reparem: não é fazer cirurgias plásticas atoda esta gente feia que vive nestes países, porque isso seria demais. Mas,que diabo - botox? Vão-me dizer que não é possível ir de vez em quando aestes sítios e dar botox a estas pobres almas? Como o mundo ficaria maisbonito.Adiante. Pimpinha desabafa, dizendo, sobre as pessoas de Marrocos, "apesarde já ter viajado muito, nunca tinha visto uma cultura assim - e sendo euloura, não me senti nada segura ou confortável na cidade". Talvez. Masvamos supor que trocavam Pimpinha por, vamos supor, 10 mil camelos. Era umbom negócio para o Independente. Dos 10 mil, escolhia, vamos lá, 2 parapassar a escrever a coluna - o que poderia trazer melhorias significativasde qualidade - e ainda ficava com 9 mil 998. O que, tendo em conta quePortugal está a ficar um deserto, pode vir a revelar-se um investimento defuturo.Pimpinha prossegue: "Já em segurança, animou-me a festa marroquina, comtoda a gente trajada a rigor".Suponho que, para a Pimpinha Jardim, "uma festa marroquina com toda a gentetrajada a rigor", tenha sido assim tipo uma festa de Halloween, tendo emconta que os marroquinos são - como a colunista diz umas linhas acima -gente feia como nunca se viu.Adiante. Ela diz: "A seguir ao jantar, mais um festão que voltou a acabarde madrugada". Calma - esclareçam-me só neste aspecto, para eu não meperder. Portanto, houve uma festa, não é? E a seguir, outra festa. OK. Umapessoa corre o risco de se perder nestes cruzeiros, com toda esta variedadede coisas que acontecem.Diz Pimpinha: "Desta vez não deu mesmo para dormir já que fomos expulsosdos camarotes às 9 da manhã, para só conseguirmos sair do navio lá para as14 horas. Tudo porque um marroquino se infiltrara no barco e passara umanoite em grande, uma quebra inadmissível na segurança".Ora bom. Ora bom, ora bom, ora bom, ora bom.Portanto, aqui a questão é: viagens a Marrocos e festas com pessoasvestidas de marroquinos, tudo bem. Agora, se pudessem NÃO ESTAR LÁ osmarroquinos, isso é que era jeitoso. Malditos marroquinos, sempre com amania de estarem em Marrocos. E como é que acontece esta quebra desegurança? Eu compreendo o drama de Pimpinha. É que o facto da segurançadeixar entrar um estafermo marroquino vestido de marroquino, numa festa comgente bonita vestida de marroquina, isso só vem provar que, se calhar, osamigos da Pimpinha não são assim tão mais bonitos do que essa gente feia deMarrocos. E isso é coisa para deixar uma pessoa deprimida. Temos nós anossa visão do mundo tão certinha e de repente aparece um marroquino e umabrecha na segurança... Enfim - nada que uma ida às compras não resolva, aochegar a Lisboa, certo, Pimpinha?Adiante. Diz Pimpinha: "Já cá fora esperava-nos um grupo de policias comcães, para se certificarem de que ninguém vinha carregado de mercadoriasilegais - e não sei como é que, depois de tantos avisos da organização,ainda houve quem fosse apanhado com droga na mala!"DROGA? NUMA FESTA DO JET SET PORTUGUÊS? NÃO! COMO? NÃO. Recuso-me aacreditar. Deve ter sido confusão, Pimpinha. Era oregãos. Era especiarias.Pimpinha Jardim declara: "Mas o saldo foi bastante positivo. Aliás, deviahaver mais gente a arriscar fazer eventos como estes".Gosto desta Pimpinha interventiva. Sim senhor, diga tudo o que tem a dizer.Faça estremecer o mundo. E com assuntos que valham a pena. Aliás, era capazde ser uma boa ideia escrever um e-mail ao Bob Geldof a tentar fazê-lo verque essa história de organizar concertos para combater a pobreza emÁfrica... Para quê? Geldof devia começar era a organizar concertos parachamar a atenção do mundo para a falta de cruzeiros com festas. Isso é queera. Mania das prioridades trocadas. Que maçada.Mesmo no final, a colunista remata dizendo: "Devia haver mais gente aarriscar fazer eventos como estes - já estamos todos fartos doslançamentos, "cocktails" e festas em terra".Aprecio aqui duas coisas: a utilização do "já estamos todos", como sePimpinha voltasse a acolher o leitor no seu regaço como que dizendo: "Sim,tu és dos meus e também estás farto de lançamentos, 'cocktails' e festas emterra. Excepto se fores marroquino, leitor. Se for esse o caso, por favor,exclui-te deste 'todos' ou então vai tomar banho antes, e logo se vê".Depois, é refrescante saber que Pimpinha está farta de lançamentos,'cocktails' e festas. Eu julgava que nos últimos dias a tinha visto emcerca de 250 revistas em lançamentos, 'cocktails' e festas, mas devia seroutra pessoa. Só pode ser. Confusões minhas.Em suma: finalmente, há outra vez uma razão para ler O INDEPENDENTE todasas semanas. Tardou, mas não falhou. Pimpinha Jardim é a melhor aquisiçãoque um jornal já fez em toda a História da Imprensa mundial.
Nuno Markl

1 Comments:

At 12:31 pm, Blogger joana said...

Tem graça, isso anda a circular por mail... :) bom post!

 

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